Sobre maternar e evoluir

Adoro pensar que somos todos animais, mamíferos, vivendo sobre a superfície de um planetinha qualquer... Acho que esse pensamento simples consegue colocar nossos problemas em perspectiva e nos tornar menos prepotentes.


Todas as duas vezes em que engravidei, me senti invadida pelos sentimentos mais “animalescos” de sobrevivência e proteção. E nos períodos de pós-parto então, me vi uma fêmea com os instintos à flor da pele! Acho que se visse um de meus filhotes correndo algum risco, eu seria capaz até de morder alguém! Sério!


Optei por parto normal nas duas vezes (afinal, esses quadris largos deviam servir pra alguma coisa)... Eu nem queria anestesia! Mudei de idéia assim que a bolsa estourou da primeira vez e as contrações se tornaram humanamente insuportáveis! (Humanos, animais fracotes! Bléé!). Já na segunda vez, vivi a experiência do parto sem qualquer remedinho, já confiava mais em mim...


Achava que iria parir e sair andando, assim como eu achava que faziam as índias, indo até a beira do rio, dando a luz, lavando seus bebês e voltando para as ocas, normalmente. Que maricas eu sou, eu pensava entre uma contração e outra, enquanto tentava respirar e já considerava seriamente a hipótese de que aquela dor não era normal e eu morreria na próxima contração. COMO MINHA AVÓ FEZ ISSO?? 5 VEZES?? EM CASA?? SEM ANESTESIA???


Enfim, após 1 horinha de dores insuportáveis, eu já estava lambendo a cria (no sentido figurado, claro!). Nas duas experiências que tive, esqueci da dor assim que peguei meu bebê-pacotinho nos braços. Eu só pensava que iria cuidar pra que aquele filhote crescesse saudável, e pra isso, eu daria o melhor de mim. Em troca, ele levaria meus genes para a eternidade. Com uma bitoca naqueles pequenos nariguinhos, selei meu pacto com meus dois filhotes. 


Quando tive meu primeiro filho, eu estava decidida a alimentá-lo, da maneira mais natural possível, pelo maior tempo possível. E achava que essa seria uma função super natural, que eu faria quase sem perceber... Mas NÃO foi! Já na primeira noite, ainda na maternidade, eu tinha vontade de gritar de dor! Aquele bebê faminto, estava há hooooras mamando, e nunca ficava satisfeito. Ele fazia isso com a maior força possível, pra desespero dos meus pobres peitinhos... Eu chamava as enfermeiras, e contava que aquilo não devia ser normal... E elas, com a maior tranqüilidade, repetiam que é assim mesmo. Como assim, é assim mesmo?? Nutrir seu filhote não deveria ser algo natural? Como pode doer tanto, enfermeira do céu?


A dor persistiu, assim como a fome do meu filhote! E eu, fêmea da espécie cabeça-dura, insisti, engolindo o choro a cada mamada. Resisti à tentação de oferecer mamadeiras de leite em pó enquanto pude, e pensava: se a vaca consegue dar o leite, eu também conseguirei!!! Mas doía muito, muito, muuuuito. Nenhuma pomada ajudou (cadê as facilidades da modernidade???).  COMO MINHA AVÓ FEZ ISSO??? 5 VEZES??


Essa pergunta ficou na minha cabeça por semanas, entre meu primeiro parto e a primeira visita da minha avó. COMO VC FEZ ISSO??, perguntei, finalmente. Ela me respondeu: Foi assim também, com toda essa dor. Todas as 5 vezes! E com a expressão mais calma possível, concluiu: É assim mesmo, fia. E sorriu. Eu, então, respirei fundo e me conformei. Sentir dor deve fazer parte das atribuições de todas as fêmeas...


Assim, insisti, engoli o choro e permaneci amamentando meu bebê. Fiz que fiz, até que um dia (mais ou menos 40 dias depois), sem mais nem menos, parou de doer! E a amamentação, enfim, tornou-se algo natural e prazeroso, assim como aparece nas propagandas de aleitamento materno na televisão. 


Ah! Eu me sentia uma super-heroína, que ao primeiro chamado do filho, abria a camisa e resolvia seus problemas! De repente, abrir os botões da camisa em público não me parecia absurdo. Que se dane o mundo, o que importa é alimentar meu filhote!  E ele, retribuía meu esforço crescendo e engordando exponencialmente. Que beleza de gordo-bola! =)


Mas após alguns meses exercendo o papel fêmea-mamífera na sua plenitude, percebi que não mais dava conta. Havia já voltado ao trabalho (como a maioria das fêmeas humanas do século XXI), passando a maior parte do dia desgrudada do meu filhote. Se pelo menos eu fosse também uma fêmea-marsupial neste momento, colocando o filhotinho na bolsa e saltitando por aí... Mas não era, então deixava o filhotinho no berçário logo cedo e só cheirava seu cangotinho de novo no fim da tarde. E isso fez meu corpo achar, burramente, que havia desmamado meu bebê.


Confesso que me senti uma fêmea-incompetente ao ver meu filhote mamar, mamar e não matar a fome... Então lembrei da minha avó, que criou os 5 filhos sem dramatizar as coisas, do jeito que foi possível, sem reclamar, e fui até a cozinha preparar uma mamadeira pro meu bebê. Ao vê-lo mamar e depois, dormir satisfeito, me senti privilegiada. Afinal, eu era uma mamífera com condições de continuar nutrindo meu filhote, mesmo que através de leite em pó.


Com minha segunda bebê, a batalha da amamentação foi parecida, mas as neuras, muito menores. Talvez eu já houvesse entendido que a nossa espécie pode não ser a mais forte, mas sim uma das mais adaptáveis! E para a evolução natural, sabemos, isso basta!


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