Sobre a morte, a física e o céu – em memória das vítimas do Covid-19


Esta foi a semana dos Buracos Negros e eu havia planejado falar sobre a relação deles com minhas observações do vento solar (vejam o vídeo sobre minha observação dos quasares cintilantes aqui). Mas as coisas mundanas estão duras demais para permitir que minha cabeça se concentre em algo tão distante assim. Numa semana em que o número de mortes CONFIRMADAS por COVID-19 no Brasil ultrapassou os 21mil, e que mais de 330 mil famílias vivem a angústia de ter alguém amado hospitalizado por conta do vírus, resolvi revisitar este texto que escrevi há alguns anos descrevendo a visão da Física (e dessa física que vos escreve) sobre a morte. Espero que esse texto traga algum conforto ao coração daqueles que perderam um ente querido durante essa pandemia.


A morte não é o fim, é a transformação. Quem diz isso não é essa física aqui, Ale Pacini. É a Física mesmo, com F maiúsculo!

Para entendermos isso, precisamos falar da conservação de energia, que é uma lei da natureza, uma observação sistemática dos processos naturais. Em outras palavras, é aquele velho papinho de que, na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, sabem? É também conhecida como primeiro princípio da termodinâmica. Enfim... Qual seria a relação disso tudo com o tema da morte?

A relação é que nós somos uma parte da natureza, formada por pequenos átomos que nunca irão simplesmente desaparecer. Átomos de ferro, por exemplo, presentes nas hemoglobinas do nosso sangue vermelho, são fundamentais para nossa vida, pois participam do transporte de oxigênio em nosso corpo. Átomos de ferro, são também os responsáveis pela cor avermelhada da superfície do planeta Marte. O ferro que corre no seu sangue e o ferro da superfície marciana vieram do mesmo lugar! Das estrelas! Durante um ciclo da vida de uma estrela velha, chamada supergigante vermelha, núcleos de elementos pesados como o ferro são sintetizados. Quando essa estrela morre, ocorre uma explosão dramática, chamada supernova, e todos esses elementos são espalhados pelo meio interestelar. As nuvens interestelares que formaram o Sol e o sistema planetário solar, incorporaram o ferro e outros átomos distribuídos pelas supernovas.

Portanto, podemos pensar que, ao final de nossas vidas, nossos átomos, que já foram o resultado da transformação de outros elementos, irão integrar-se a outros sistemas, numa outra organização, mas ainda estarão por aí... Aquela história de que "do pó viemos e ao pó retornaremos" é uma verdade científica. Adiciono apenas o detalhe de que o tal pó é, de fato, pó de estrela! Nosso corpo possui 97% dos mesmos tipos de átomos que as estrelas, lindo né? ⭐

Além disso, o calor que nosso corpo produz (já transformando a energia obtida dos alimentos que ingerimos) vai apenas ser transferido para o ambiente, não vai desaparecer jamais.

A luz que foi um dia refletida no corpo daqueles que amamos e capturada por nossos olhos, formou uma imagem em nossa mente e despertou uma emoção dentro da gente. Nossa espécie tem o privilégio de armazenar essa imagem em nossa memória, mesmo quando não há mais a possibilidade de receber essa luz diretamente do outro. Cada vez que acessarmos esse dado em nossos arquivos mentais, conseguiremos reviver aquele mesmo sentimento, que sorte!

Nossa vida é uma manifestação cósmica transiente. Nossa existência, tão rara, depende de fenômenos que aconteceram há bilhões de anos no universo, da sucessão de eventos aleatórios ocorridos durante a existência de nossos antepassados (muitas vezes esquecidos). Nossa existência não termina com o parar de nosso coração. Permanecemos existindo em nossos descendentes e no coração daqueles que nos amaram. Nossa energia será utilizada em outros processos naturais e nossos átomos, reciclados pela mãe natureza.

Por isso, quando passarmos pela experiência tão dolorosa da morte de um ente amado, pensemos na primeira lei da termodinâmica e lembremos que somos todos formados por elementos oriundos das estrelas... Quando olharmos para o céu, saberemos que os elementos que, um dia, fizeram parte daquela pessoa querida, terão retornado, de uma maneira ou de outra, para o universo.

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